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Os medos dos conservadores

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perguntado 2 meses atrás em Curiosidades e Opiniões por Fernando Palencia
Este desejo de volta a natureza, que Mario de Andrade e os modernistas combatiam e satirizavam com a Antropofagia Oswaldiana, queria voltar para aquele lugar rural e seguro no qual os valores, as regras e as leis não estavam escritas, estavam sim internalizadas nas relações de poder e subserviência na qual os papeis estavam todos estabelecidos e as contradições pareciam emuladas da vida cotidiana.

O conservador do início do século era um medroso contumaz, tinha medo das mulheres poderem estudar, votar, falar, gozar e viver. Tinham horror ao moderno, a literatura, a poesia, o cinema, o rádio eles poderiam colocar em risco e corromper a família, assim como o samba, o carnaval e a arte degenerada de cubistas, expressionistas e outros que tais. Mas, o que aturdia os conservadores era o risco daquela gente, operários, negros, imigrantes e principalmente os mestiços de se achegarem perto do poder e de algum status, esta gente que queria negar as diferenças naturais, diferente de nós, colocava em perigo tudo que acreditávamos, pensavam os conservadores, figuras como o médico Nina Rodrigues e intelectuais como Silvio Romero entre tantos outros, se apressavam em propagar verdades eugênicas acerca da inferioridade biológica, intelectual e moral da gente brasileira mestiçada.

As dificuldades de acesso à educação pública na primeira metade do século XX e boa parte da segunda, é reflexo deste medo conservador. A primeira universidade do Brasil é a USP de 1934. Em 1960 o número de analfabetos no país era de mais de 65%, e a escola pública pertencia a uma elite branca e higienizada pelo conservadorismo.

O conservador é sempre um medroso, um covarde, enlutado permanentemente pela presença do novo.

Mas é o conservadorismo hoje que nos indagamos, ele não tem mais este viés naturalista, preservador de valores e tradições profundas, e crítico do urbano e da modernidade industrial. A fazenda de café e o engenho de cana já não são as ambições naturais pretendidas. Afinal o que querem estes novos conservadores? A tábua que sustenta uma parte destes movimentos, sim porque são vários imbuídos do mesmo objetivo, conter o novo, e passa, primeiro, pelo antigo medo das massas desformes de homens e mulheres que assolam as grandes e desumanas cidades, um renovado sentimento de exclusão no qual há o nós e eles, o simbólico, as manifestações contra o metrô no bairro nobre de Higienópolis, é sintomático da diferença entre nós e eles. O discurso racista e eugênico se disfarça de crítica social, econômica e em defesa da segurança coletiva, simplificado na ojeriza aos programas sociais de inclusão e distribuição de renda, “são todos vagabundos, não gostam de trabalhar” refaz-se o discurso, mas sua essência é a mesma do início do século XX. A certeza de Monteiro Lobato, e seu Jeca, sempre indolente e preguiçoso.

O segundo ponto é a luta sob a ótica religiosa de manutenção dos costumes, a ideia de família como ponto central e a fé cristã, hoje incrementada pelos neopentecostais da teologia da prosperidade. As evidências de uma sociedade convulsionada por novidades humanas e com outros valores, que não aqueles tradicionais causam desconforto profundo. O discurso religioso se torna legitimador das premências e dos medos. A onda moralista varre as ideias conservadoras como sendo o único esteio possível de se precaver contra o caos avizinhado por uma moralidade nova, flexível e relativizada. É preciso negar o individualismo burguês, as conquistas sociais de gênero e as garantias da vida privada para restituir não mais o estado natural, mas sim a ordem ofertada por Deus, “está tudo aqui, -grita o conservador,- na Bíblia, todas as verdades.”

Uma terceira e última hipótese é a destituição da política e da democracia como instrumento de intervenção social e econômica, “ninguém presta, todos são ladrões” repetem os conservadores. Em meio a crise política gestada pela esquerda, desmoralizada e acuada pelos seus próprios erros, os conservadores tentam mostrar que o melhor caminho, e sempre o mais fácil para os incautos, é a ditadura, um pai salvador, autoritário, (ele tira selfs com a polícia) temente a Deus e submisso a família tradicional para nos restituir a moral e conter o avanço do novo e imoral que nos ameaça. É hora de usar a força repressora, contumaz, impiedosa contra os imorais. A crença simplória de que a força autoritária é a única salvaguarda contra tudo e contra todos.

Ao negar a política e a democracia como único caminho possível, e muito mais tortuoso e exigente, o oportunismo conservador, inventa medos esquecidos, o comunismo, que nem os comunistas acreditam mais, que o digam chineses, vietnamitas e cubanos se torna o pano de fundo que alimenta a paranoia.

Teorias conspiratórias se avolumam: são venezuelanos guerrilheiros, haitianos famélicos combatentes, FARCs nas esquinas, juristas em toga vermelha, enfim um arcabouço de crendices na qual o único fim é a disseminação da desinformação associada a um medo primário, no qual a equação se fecha com a certeza de que congresso, partidos, democracia, política, judiciário, e garantias sociais são um antro no qual brotam a corrupção, a maldade e a negação de nós, cidadãos de “bem” crentes nos mais agastados dos valores tradicionais. Acabar com a democracia parece o desejo dos conservadores, com diferentes tonalidades, todos querem não uma refundação política do Brasil, querem sim, o fim da sociedade aberta e livre, e em seu lugar o autoritarismo paternal, policialesco e protetor.

A democracia é o lugar da contradição, e os conservadores tem profundo medo dela, onipresente entre nós. Se a parte sadia e sã da sociedade não tomar posição seremos alvo fácil destes covardes tomados pelo medo da realidade.Eles desejam reduzir a existência a um nível no qual seremos tratados como aberrações.

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respondido 1 mês atrás por Anuro Verde
Não entendi nada
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